Matança da Páscoa em Lisboa dizimou judeus

A História que a maioria de nós aprendeu na escola apagava do nosso passado nacional todos os erros e tragédias, preferindo optar pela apologia dos gloriosos feitos dos lusos mais distintos, a começar por Viriato, passando por D. Afonso Henriques e o Infante que conquistou o mundo, para acabar, obviamente, no omnipresente dr. Oliveira Salazar. Esqueceram-se de nos contar os episódios que nos envergonham, é certo, mas que são aqueles a partir dos quais podemos entender o presente. Porque só quando compreendemos a raiz dos problemas, somos capazes depois de construir pontes, e investir num futuro mais justo.

  

Uma das tragédias que nos omitiram, e que fazem qualquer lisboeta abrir a boca em choque, foi a «Matança da Páscoa», ocorrida em 1506. Em três dias, os habitantes de Lisboa assassinaram entre duas e quatro mil pessoas de origem judia, lançando para enormes fogueiras homens, mulheres e crianças. Pilharam, violaram e destruíram as casas daqueles que eram considerados já cristãos-novos. Nós? Sim, nós, aquele povo de «brandos costumes» que repetidamente nos disseram que éramos. Contra os judeus, sem razão nenhuma, tal e qual os alemães do II Reich que tanto desprezamos, na ilusão de que seríamos incapazes de actos iguais? Sim.

Lisboa vivia uma período de seca e peste, quando a 19 de Abril um homem alegou ter visto na igreja de S. Domingos o rosto de Cristo iluminado. Um outro mais cínico riu daquilo que o povo considerava um bom presságio, dizendo tratar-se apenas do reflexo do sol. As palavras custaram-lhe a vida, sendo espancado até à morte no largo com o mesmo nome. Um frade dominicano teve então a diabólica ideia de prometer indulgências a quem matasse hereges, chacina a que só os soldados de D. Manuel conseguiram pôr fim.

Ontem, o presidente da Câmara, o presidente da Comunidade Israelita e o patriarca de Lisboa inauguraram no mesmo largo uma estátua aos valores da tolerância e da paz. De facto, só a verdade liberta.

Isabel Stilwell

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