Políticos e opinião pública israelita criticam negociações com Síria

O anúncio da abertura de negociações indiretas entre Israel e Síria gerou críticas da opinião pública e de políticos israelitas, que não apoiam uma eventual retirada das Colinas de Golã, e suspeitam de que o primeiro-ministro Ehud Olmert esteja a tentar desviar as atenções dos seus problemas com a Justiça.

Os israelitas estão revoltados com a hipótese de que Olmert, investigado actualmente por um escândalo de corrupção, tenha decidido retomar as negociações com Damasco numa tentativa de manipular a opinião pública. O primeiro-ministro pode voltar a ser interrogado pela polícia na sexta-feira.

Depois de oito anos com as relações congeladas, Israel e Síria anunciaram na quarta-feira que deram início a negociações indiretas de paz, sob os auspícios da Turquia, que incluem a retirada israelita das colinas de Golan, conquistadas por Israel na guerra de 1967.

Olmert é alvo de duras críticas devido ao preço de um eventual acordo de paz. O primeiro-ministro israelita declarou que o seu país estaria “disposto a ir mais além nas concessões, que certamente serão dolorosas”.

Com estas palavras, o chefe do governo israelita referia-se a Golan, área estratégica conquistada em 1967 e anexada em 1981, onde actualmente vivem cerca de 20.000 colonos judeus.

A Síria exige a devolução total da região, incluindo um acesso ao lago Tiberíades, principal reservatório de água doce de Israel.

Para impedir uma retirada, 57 dos 120 deputados do Parlamento israelita (entre eles seis pertencentes ao Kadima, partido de Olmert) devem apresentar na próxima semana um projecto de lei que exige a ractificação de pelo menos 80 deputados (quase 20 a mais que o habitual) da Knesset para a aprovação de qualquer concessão territorial nas colinas de Golan.

Eli Yishai, chefe do partido ultra-ortodoxo Shas, membro da coalizão governamental, expressou suas reservas ao afirmar que a Síria, “que apoia o Hezbolah e o Hamas, continua a fazer parte do eixo do mal”.

A ministra israelita das Relações Exteriores, Tzipi Livni, que segundo a imprensa do país não participou dos primeiros contactos com Damasco, impôs condições.

“A Síria deve entender que precisa romper com o Irão, com o Hezbolah (movimento radical xiita de origem libanesa) e com o Hamas (movimento radical islâmico palestino), além de outras organizações terroristas” para alcançar a paz, afirmou Livni.

Duas pesquisas, de um canal de televisão e da rádio militar israelita, apontam que 70% e 64% dos israelitas, respectivamente, são contra uma retirada de Golan.

Além disso, a sondagem mostra que 64% dos entrevistados relacionam a retomada das negociações com a Síria ao escândalo de Olmert.

Até mesmo na oposição de esquerda israelita, favorável a uma eventual retirada de Golan, a deputada Zeeva Galon disse à rádio pública que “um primeiro-ministro envolvido em quatro investigações da polícia não tem estatura moral para tomar uma iniciativa tão importante com a Síria”.

Uma fonte próxima a Ehud Olmert, citada pela rádio militar, declarou que o chefe de governo tem mandato para negociar e que Israel tem mais chances de alcançar um acordo com a Síria do que com os palestinos.

O gabinete do primeiro-ministro voltou a dizer nesta quinta-feira que as negociações com a Síria não têm nada a ver com as investigações sobre a entrega ilegal de fundos por parte de um empresário americano a Olmert.

 

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