Tão alegres que eles eram nas olimpíadas nazis

Numa exposição em Washington sobre os jogos de 1936, vê-se que as olimpíadas ainda permanecem sob a sombra de Berlim. Têm imagens prometeicas e propaganda nacionalista mal disfarçada. Talvez devam regressar para sempre à Grécia e ser uma celebração desportiva verdadeiramente internacional, apolítica e aberta.

Os rostos felizes são o aspecto mais surpreendente. Em toda a exposição As Olimpíadas Nazis, no Museu do Holocausto, em Washington, Estados Unidos, existe uma perturbante sensação de alegria em muitas das fotografias. Multidões sorridentes e satisfeitas desfrutam o espectáculo, concentradas na acção e arrebatadas pela emoção visceral de estarem no mesmo estádio ao ar livre com dezenas de milhares de pessoas igualmente animadas.

Também os atletas parecem felizes. Jesse Owens, a estrela afro-americana do atletismo que iria embaraçar Adolf Hitler ao vencer uma série de provas, ostenta um sorriso genuíno e acanhado. Marty Glickman, um corredor judeu que seria afastado da equipa americana de estafetas por razões que continuam a ser misteriosas, é visto aqui nos treinos antes dos Jogos Olímpicos sorridente ao sol a bordo do SS Manhattan, o navio que transportava a selecção norte-americana para os Jogos na Alemanha.

Em parte, a dissonância destas imagens exuberantes é uma ilusão da História. No Verão de 1936, embora a animosidade de Hitler contra os judeus, os não arianos e outros grupos não fosse segredo nenhum, o Holocausto ainda não acontecera. A tomada do território dos sudetas à Checoslováquia, a anexação da Áustria e a invasão da Polónia ainda estavam a alguns anos de distância. Hitler era uma ameaça e as suas políticas racistas consideradas repelentes. E isso era suficiente para levar alguns a protestarem fortemente contra a participação naquilo que se iria tornar um dos maiores golpes de propaganda do ditador. Mas os Jogos Olímpicos também eram, para muitos, uma pausa agradável na tempestade que se aproximava. “Todos nós desejamos acreditar no melhor,” afirmou Sara Bloomfield, directora do Museu do Holocausto.

Desde a sua reinvenção na era moderna, em 1896, a retórica de uma competição atlética pacífica entre uma irmandade de nações não consegue mascarar a postura nacionalista e o mercantilismo subjacente a todo o evento. E são raros os Jogos Olímpicos sem algum tipo de hipocrisia política.

Na véspera de outros Jogos Olímpicos e de novo debate sobre as fronteiras permeáveis entre o desporto olímpico e a política internacional, o Museu do Holocausto reinaugura a exposição de 1996 dedicada aos Jogos infames de 1936. A excelente exposição, que tem viajado intensamente desde que foi inaugurada há mais de uma década, voltou a abrir com novas peças e estará em Washington até 17 de Agosto.

Tocha Krupp

Estão lá coisas novas sobre o famoso transporte da tocha, que se tornou o símbolo dos Jogos de Berlim. No exterior da exposição, vê-se pintado no chão um desenho retirado de um cartaz da época, que publicitava a passagem de testemunho da tocha - um mapa que mostra as cidades no percurso entre Olímpia e Berlim. A exposição abre com um dos suportes originais da tocha, uma elegante peça de metal feita pela Krupp, o patrocinador das infra-estruturas do Terceiro Reich.

Susan Bachrach, conservadora do museu, diz que o cartaz com o mapa do transporte da tocha deu origem a uma polémica em 1936. Se bem que a versão exibida nesta exposição esteja isenta de iconografia nazi, uma versão anterior revelava um mapa da Europa com o território sudeta já anexado pela Alemanha, o que não foi aceite de bom grado pelos checos. É um poderoso símbolo de como as intenções nazis durante os Jogos já estavam pouco ocultas.

O Terceiro Reich já tinha, por exemplo, reinstalado os ciganos de Berlim em campos de concentração no exterior da cidade. Já vigoravam as leis de Nuremberga de 1935, que recomendavam uma punição de trabalhos forçados ou prisão para casamentos mistos ou relações sexuais entre judeus e não judeus. E as ambições militares do país haviam sido expressas pela ocupação militar da Renânia poucos meses antes do início dos Jogos.

Por outro lado, foram dadas ordens superiores para que grandes manifestações anti-semitas fossem interrompidas, enquanto o mundo estivesse de olhos postos em Berlim. Os jornais mais virulentos foram retirados dos quiosques. E, embora os judeus tivessem sido expurgados do atletismo alemão, alguns atletas “não arianos” foram simbolicamente admitidos na selecção olímpica alemã por causa da pressão internacional. Entre eles, encontrava-se a esgrimista Helen Mayer, que era em parte judia e na altura se encontrava a viver nos Estados Unidos. Ela regressou à Alemanha para competir pela equipa alemã a pedido do Ministério dos Desportos do Reich. Foi uma decisão estranha, em muitos aspectos inexplicável, e é quase sinistro quando a vemos num pequeno filme a fazer a saudação nazi no pódio (ganhou a medalha de prata na prova feminina individual).

A exposição está repleta destes apontamentos curiosos e contraditórios. Os esforços para boicotar os Jogos forçaram os norte-americanos a pensar nas leis que segregavam os afro-americanos nos estados sulistas, que tinham muitos aspectos semelhantes às primeiras discriminações anti-semitas na Alemanha. 

O facto de Hitler ter conseguido a organização dos Jogos Olímpicos foi, em si mesmo, um acidente histórico. Quando os Jogos foram atribuídos à Alemanha em 1931, Hitler ainda não subira ao poder. Os responsáveis pelos Jogos Olímpicos esperavam que estes celebrassem a reentrada da Alemanha na comunidade das nações após a Primeira Guerra Mundial.

Imagens perfeitas

Até mesmo a passagem de testemunho da tocha, que se adequava tão poderosamente à imagética política nazi, foi inventada por alguém que não era nazi convicto. O crédito vai para Carl Diem, que se tornaria um respeitado historiador desportivo e membro do Comité Olímpico alemão do pós-guerra.

Era uma ideia inspirada e proporcionou um fantástico material a Leni Riefenstahl, a realizadora nazi autora do brilhante filme Olympia baseado nos Jogos de 1936. Foi muito provavelmente Diem que primeiro se lembrou de Riefenstahl (admirava o seu Triunfo da Vontade) e talvez mereça algum crédito por uma das sequências mais extraordinárias da filmografia do século XX: através da névoa do tempo, a Grécia clássica emerge e em seguida explode numa vida nova, quando jovens esculturais de tronco nu mergulham a tocha nas chamas sagradas. Era lírico, era wagneriano, era prometeico, era uma imagem perfeita.

Este tipo de imagética ainda impregna os Jogos Olímpicos que, em muitos aspectos, permanecem sob a sombra de Berlim. É impossível percorrer esta exposição sem sentir uma síndrome de repetição. E se as leis de Jim Crow enfraqueceram a posição contra os nazis, também o espectro de Abu Ghraib e de Guantánamo retirou poder aos argumentos contra a repressão política na China.

Nessa altura, tal como agora, os argumentos a favor de um boicote foram contrapostos com reivindicações de que os Jogos Olímpicos não deveriam ser politizados e de que seria injusto para os atletas se não participassem.

Mas um capítulo mais humilhante e pouco conhecido que poderia ter desacreditado o Comité Olímpico Internacional foi a decisão de realizar os Jogos de Inverno de 1940 na Alemanha. A decisão foi tomada em Junho de 1939, depois de planos para os organizar em St. Moritz, na Suíça, se terem gorado. Mesmo após a Noite de Cristal e quatro anos de ditadura predadora de Hitler, a Alemanha era novamente considerada um país aceitável (ainda que fosse uma decisão de último minuto) para acolher os Jogos Olímpicos. Não chegaram a realizar-se, embora Bachrach afirme que a proposta do COI à Alemanha nunca foi retirada. Foi a própria Alemanha que desfez o acordo, talvez porque tivesse acabado de invadir a Polónia em Setembro de 1939.

Regressar à Grécia

Actualmente, as cerimónias olímpicas ainda parecem quase fascistas, com os seus estandartes e tochas e desfiles de atletas. Talvez não possa ser evitado. Mas oculta na exposição, de uma forma um pouco perversa, está uma boa ideia que poderia expurgar os Jogos Olímpicos do espectáculo político que tornou o percurso da tocha para os Jogos de Pequim tão problemático. O plano de Hitler, após conquistar o mundo, era mudar os Jogos Olímpicos permanentemente para Nuremberga.

Esta ideia poderia permitir repensar-se a premissa de que os Jogos devem ser realizados em diferentes cidades, o que apenas encoraja uma orgia de propaganda nacionalista mal disfarçada. Talvez os Jogos de Verão pudessem regressar permanentemente à Grécia, onde ocorreram pela primeira vez e foram realizados com tanto sucesso em 2004. E a orquestração do espectáculo poderia ser realizada por um comité verdadeiramente internacional, despojando-o de aspectos específicos deste ou daquele país. Então aí talvez os Jogos Olímpicos pudessem emergir como uma celebração desportiva verdadeiramente internacional, apolítica e aberta.

* Philip Kennicott (Jornalista)

in “The Washington Post” & “Público”

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